Mais do que um espaço para apresentação de pesquisas e debates científicos, o 44º Simpósio Brasileiro de Redes de Computadores e Sistemas Distribuídos (SBRC 2026) consolidou-se como um evento capaz de promover conexões entre universidade, escola, indústria e sociedade. Realizado entre os dias 25 e 29 de maio, em Praia do Forte (BA), o simpósio contou com a iniciativa SBRC+, um conjunto de ações que ampliou o alcance do evento para além da programação técnico-científica tradicional.
Coordenado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pelo Instituto Federal da Bahia (IFBA), o SBRC 2026 reuniu pesquisadores, estudantes e profissionais de todo o país em uma programação composta por sessões técnicas, minicursos, painéis, workshops, palestras, tutoriais, Hackathon e Concurso de Teses e Dissertações. Paralelamente, o SBRC+ promoveu atividades voltadas à comunidade local por meio de três eixos integrados: SBRC+Escola, SBRC+Comunidade e SBRC+Indústria.
A proposta nasceu ainda nas primeiras reuniões de planejamento do evento. Segundo a professora Maria Carolina Souza, da UFBA, uma das responsáveis pela coordenação da iniciativa, a ideia surgiu a partir do desejo de que o simpósio deixasse um legado para a região que o recebeu.
“Nas primeiras reuniões de planejamento do evento em Praia do Forte o Prof. Leobino compartilhou o desejo de envolver mais a comunidade local e deixar algum legado para a mesma. Então, nos diálogos com o Prof. Allan eles resolveram direcionar seus esforços para a comunidade escolar da Escola Municipal Angelina Rodrigues, considerando que ela fazia parte do complexo do Centro de Convenções. Ao visitar a escola, a equipe foi muito bem acolhida pela diretora da escola, Mariuchia, e esse foi um aspecto decisivo e que nos guiou durante o desenho da proposta”, relembra a professora.
Escola e comunidade
Embora estruturado em três frentes, o SBRC+ foi concebido de forma integrada. A organização percebeu que, no contexto local, escola e comunidade eram dimensões inseparáveis, uma vez que estudantes, famílias, professores e demais profissionais da educação representam atores centrais da vida comunitária.
“O planejamento do evento foi sustentado nesses três pilares. Tivemos duas equipes: uma para a trilha indústria e outra para trabalhar a escola e a comunidade. Uma única equipe para o braço escola/comunidade ocorreu porque observamos que não tínhamos como dissociar essas duas frentes, já que os estudantes, suas famílias, os funcionários e os docentes representavam atores fundamentais da comunidade”, explica Maria Carolina.
Ao longo da semana, estudantes da rede pública participaram de oficinas, demonstrações tecnológicas, palestras e atividades interativas realizadas tanto na escola quanto no Centro de Convenções de Praia do Forte. Entre as iniciativas estiveram atividades promovidas pelo projeto MUSAS, palestras voltadas ao público infantojuvenil e demonstrações de tecnologias apresentadas durante o Salão de Ferramentas do SBRC.
Para a coordenadora, a aproximação entre crianças, jovens e a Computação revelou o potencial transformador das ações de popularização da ciência.
“Essa iniciativa deixou claro como ações como essas são capazes de despertar a curiosidade e apresentar novas formas de ensinar e aprender. Durante a semana em que estivemos na escola, pudemos perceber a mudança no comportamento das crianças: desenvolvimento da autonomia, desenvoltura para o compartilhamento de dúvidas e opiniões, produção de novos conhecimentos a partir do fazer e do experimentar e fortalecimento do pensamento crítico”, destaca.
Segundo ela, os impactos foram percebidos em diferentes níveis. “A comunidade escolar pode conhecer melhor a área da Computação. Muitos despertaram maior interesse em continuar seus estudos na área. Os docentes identificaram outras possibilidades de promoção do ensino-aprendizagem e a comunidade científica mobilizou a comunidade escolar para a reflexão sobre o uso das tecnologias digitais, destacando desafios e potencialidades.”
Democratização do conhecimento científico
Além das atividades educacionais, o SBRC+Comunidade promoveu debates sobre inclusão, diversidade, liderança feminina e o papel da tecnologia na sociedade, reunindo públicos distintos em espaços de diálogo e troca de experiências.
Para Maria Carolina, iniciativas dessa natureza contribuem diretamente para a democratização do conhecimento científico.
“Diálogos abertos para públicos diversos têm maior chance de alcançar bons resultados porque precisam possibilitar sínteses, negociações e aprofundamento de ideias a partir de diferentes olhares. Nós reunimos uma diversidade de pessoas em um mesmo espaço físico para dialogar sobre questões que tocam a comunidade escolar e a comunidade científica ao mesmo tempo, mesmo que de formas diferentes.”
A professora destaca ainda o potencial inspirador dessas ações para meninas e jovens da região.
“As meninas se inspiram em mulheres computistas que são destaques na comunidade científica. Quem sabe não teremos meninas da escola investindo em carreiras na Computação? É isso também que desejamos despertar”, celebrou.
Pesquisa e setor produtivo
No eixo SBRC+Indústria, o foco esteve na aproximação entre academia e setor produtivo por meio de sessões Birds of a Feather (BoF), showcases tecnológicos e espaços de discussão sobre desafios e oportunidades da inovação.
“A trilha indústria teve como objetivo promover sessões de discussão aberta e apresentações para a comunidade. As atividades realizadas fomentaram colaborações, identificaram oportunidades de pesquisa aplicada e possibilitaram o compartilhamento de experiências de implantação e uso de tecnologias em ambientes de produção”, afirma a coordenadora.
A integração entre os três pilares esteve alinhada ao tema central do evento, “Conexões que iluminam o futuro”, fortalecendo o papel do SBRC como um espaço de articulação entre ciência, mercado e sociedade.
Saberes locais
Para além da difusão de conhecimentos acadêmicos, o SBRC+ também buscou valorizar os saberes locais e promover intercâmbios culturais entre participantes do simpósio e a comunidade de Praia do Forte e Mata de São João.
“Não apenas tínhamos o interesse de trazer conhecimentos acadêmico-científicos para a comunidade escolar. Queríamos também oportunizar à comunidade científica o compartilhamento dos saberes populares e oferecer um ambiente escolar autêntico, com a presença da cultura local e de outras dimensões fundamentais para a formação de crianças e adultos, como esporte, arte e entretenimento”, ressalta Maria Carolina.
A programação incluiu oficina de acarajé com reflexões sobre ancestralidade e cultura, apresentações artísticas e literárias, teatro, feira de ciências, atividades de plantio, degustação de plantas alimentícias, capoeira, karatê e oficinas conduzidas por pescadores da região.
Entre as ações mais marcantes esteve a oficina de Pensamento Computacional com Instrumentos Musicais, reconhecida como a melhor atividade realizada com os estudantes.
“A atividade foi proposta por uma estudante de Licenciatura em Computação que também integra a equipe do Olodum. Tivemos representantes do Olodum e estudantes de graduação mediando a oficina, em uma experiência que uniu tecnologia, música e cultura local de forma muito significativa”, conta a professora.
Ao integrar educação, cultura, tecnologia e participação social, o SBRC+ deixou um legado que ultrapassa os limites do simpósio. A iniciativa demonstrou como eventos científicos podem se tornar instrumentos de transformação social, aproximando a produção acadêmica dos desafios reais da sociedade e fortalecendo vínculos duradouros entre universidade, comunidade e setor produtivo.
