Da criação dos primeiros programas de pós-graduação em Computação em seu estado à presidência da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) em um dos períodos mais desafiadores de sua história recente, o professor Raimundo José de Araújo Macêdo (UFBA) construiu uma carreira marcada pelo fortalecimento de instituições, pela produção científica e pelo compromisso com o desenvolvimento da Computação no Brasil.
Em reconhecimento a essa trajetória, ele receberá o Prêmio Newton Faller durante o Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSBC 2026), que será realizado em julho, em Gramado (RS). A honraria é concedida a personalidades que deixaram uma contribuição duradoura para a história da SBC. Nesta edição, o professor Avelino Francisco Zorzo, da PUCRS, também será agraciado com o prêmio.
Sobre a homenagem, Raimundo Macêdo afirmou que o reconhecimento desperta, antes de tudo, um sentimento de gratidão por todas as pessoas que fizeram parte de sua caminhada.
“Receber este prêmio é uma honra imensa, mas, acima de tudo, um exercício de memória. Há um ditado que diz: ‘Nenhum rio chega ao mar negando sua própria nascente’, e hoje essa verdade ecoa em mim com muita força”, destacou.
Para o pesquisador, a homenagem simboliza uma trajetória construída coletivamente e reforça a importância daqueles que contribuíram para sua formação pessoal e profissional.
“Este reconhecimento não é resultado de um esforço isolado. É fruto de muitas contribuições: dos ensinamentos que recebi ao longo da vida, do exemplo dos meus pais e professores, do apoio da minha família e da equipe com quem tive o privilégio de trabalhar. Recebo este prêmio com profunda gratidão, consciente de onde vim e honrando cada pessoa que contribuiu para que eu chegasse até aqui”, completou Macêdo.
Professor titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Raimundo Macêdo iniciou sua trajetória profissional ainda na graduação, como programador do antigo Centro de Processamento de Dados da universidade. Ao longo das décadas seguintes, tornou-se uma das principais lideranças na consolidação da pesquisa e da pós-graduação em computação na Bahia. Esforço iniciado em 1986, com a criação da Semana de Informática da UFBA (SEMINFO), evento bianual visando ao estabelecimento de ambientes de pesquisa em computação na universidade. Entre suas realizações estão a criação do Laboratório em Sistemas Distribuídos (LaSiD) em 1995, primeiro grupo de pesquisa em Computação da UFBA, a criação da Especialização Avançada em Sistemas Distribuídos em 1997, primeira pós-graduação da área no Estado da Bahia, do primeiro doutorado em Ciência da Computação do estado em 2006, e do primeiro mestrado em Ciência da Computação da UFBA em 2009, desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Macêdo também foi responsável pelo Programa de Pós-Graduação em Mecatrônica (PPGM) da UFBA, primeiro programa stricto sensu do Departamento de Ciência da Computação da UFBA. Criado em 2002 a partir de uma parceria entre o Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e a Escola Politécnica da UFBA, o Programa foi fundamental para a criação posterior dos Doutorados em Computação e em Engenharia Industrial na UFBA.
Seu trabalho também esteve à frente da criação de importantes estruturas acadêmicas, como o Centro Interdisciplinar de Ciências e Tecnologias da Informação (CICTI) em 2003, além de iniciativas voltadas à expansão da computação em universidades públicas. Na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), onde foi pró-reitor de Tecnologia da Informação e Comunicação de 2013 a 2017, liderou a implantação da infraestrutura digital da instituição e, em 2014, coordenou a criação do componente curricular obrigatório “Introdução ao Raciocínio Computacional”, incorporando o pensamento computacional à formação básica de todos os estudantes da universidade.
Na SBC, dedicou mais de 12 anos à gestão da entidade. Foi diretor de Cooperação com Sociedades Científicas entre 2011 e 2019 e presidente da Sociedade por dois mandatos consecutivos, entre 2019 e 2023, período que incluiu a pandemia de COVID19. Nesse período, conduziu a atuação institucional da SBC em temas estratégicos para a comunidade científica, como a defesa do financiamento à ciência, da soberania tecnológica nacional, da inclusão da Computação na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), da utilização da Computação no enfrentamento das mudanças climáticas , com manifesto aprovado na Assembleia Geral da SBC em 2022, além da defesa do sistema brasileiro de votação eletrônica.
Sua gestão também deixou importantes legados institucionais, entre eles a política de publicação aberta, o código de conduta para autores e a reforma do Estatuto da SBC, com a incorporação das comissões de ética e de educação básica, a institucionalização permanente da Diretoria de Ensino de Computação na Educação Básica e a criação dos prêmios Luiz Fernando Gomes Soares e SBC Service Award, destinados, respectivamente, ao reconhecimento de trajetórias com impacto social de membros da SBC e de serviços prestados à SBC por membros da comunidade internacional.
No cenário internacional, Raimundo Macêdo representou o Brasil na Assembleia Geral da International Federation for Information Processing (IFIP) por mais de uma década, integrou o Conselho da entidade por dois mandatos consecutivos e presidiu uma força-tarefa internacional dedicada às tecnologias digitais e às mudanças climáticas. Também representou o país no Latin American Center for Informatics Studies (CLEI), contribuindo para ampliar a inserção internacional da comunidade brasileira de computação.
Na pesquisa científica, destacou-se por suas contribuições pioneiras em sistemas distribuídos, tolerância a falhas, consenso distribuído, sistemas autoadaptativos e segurança de sistemas ciberfísicos baseados na Internet das Coisas (IoT). Ao longo da carreira, coordenou projetos nacionais e internacionais, participou dos principais comitês científicos da área, orientou dezenas de pesquisadores e desenvolveu atividades de pesquisa em instituições como o IRISA, na França, e a Universidade de Lisboa.
