Selo de Inovação SBC revela o potencial transformador da Computação brasileira

O que acontece quando pesquisa, tecnologia e criatividade são colocadas a serviço de problemas reais? O resultado pode estar em uma inteligência artificial capaz de apoiar a identificação de lesões durante exames médicos, em um dispositivo que busca devolver autonomia a pessoas com Parkinson ou em uma plataforma que utiliza dados territoriais para qualificar decisões. Essas são algumas das soluções reconhecidas pelo Selo de Inovação SBC 2026, iniciativa que valoriza projetos inovadores desenvolvidos na área de Computação e seu potencial de gerar impacto para a sociedade.

A edição deste ano teve seus três projetos vencedores definidos após as apresentações dos pitches durante o COMPUTEC, no CSBC 2026, realizado em Gramado (RS), em julho. O primeiro lugar ficou com o projeto “Deep Learning aplicado na Detecção de Anomalias em Vídeos no Apoio à Tomada de Decisão”, seguido pelo “VerStick”, em segundo lugar, e pelo “TerraPlanner – Plataforma Aberta de Inteligência Territorial como Serviço (TIaaS)”, na terceira colocação.

Para a professora Flávia Santoro, coordenadora do Selo de Inovação SBC, a edição 2026 mostrou a diversidade e a maturidade das propostas que chegam à iniciativa. Mais do que a qualidade técnica, ela destaca o propósito presente nos projetos e o potencial de transformação das soluções apresentadas.

“Participar desta edição do Selo de Inovação da SBC foi uma experiência que reafirmou, mais uma vez, o quanto a inovação brasileira está em boas mãos. Nas defesas, o que mais me marcou foi a energia dos candidatos: times preparados, atentos a cada pergunta da banca, defendendo suas ideias com paixão e domínio técnico. Dava para sentir o quanto cada projeto carregava não só esforço, mas propósito. Fico com a sensação de que, mais do que premiar vencedores, celebramos um ecossistema de inovação vivo, plural e cada vez mais maduro”, resume a coordenadora.

IA e Saúde

O projeto vencedor, “Deep Learning aplicado na Detecção de Anomalias em Vídeos no Apoio à Tomada de Decisão”, reúne pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e aposta no uso de inteligência artificial para identificar padrões anômalos em vídeos e apoiar processos de tomada de decisão.

Entre as aplicações desenvolvidas pela equipe está uma solução voltada ao auxílio de médicos especialistas na identificação de pólipos durante exames de colonoscopia. A tecnologia processa, em tempo real, as imagens captadas pelo colonoscópio e demarca na tela as regiões em que uma possível lesão é identificada, funcionando como ferramenta de apoio ao profissional durante o exame.

O sistema é composto por um protótipo conectado entre o colonoscópio e o monitor que exibe as imagens do procedimento. O vídeo é processado pela inteligência artificial e retorna à tela com a demarcação realizada pelo sistema. A proposta é contribuir para que pólipos, que podem ser precursores do câncer colorretal, não passem despercebidos durante o exame.

Para o professor Ricardo Franco (UFG), integrante da equipe, o reconhecimento da SBC representa uma validação do caminho percorrido pelo projeto, que envolveu pesquisadores e estudantes de diferentes níveis de formação.
“Ao longo do desenvolvimento do projeto, firmamos uma parceria com uma empresa do mercado, estabelecemos metas ambiciosas e, principalmente, envolvemos alunos de graduação, mestrado e doutorado na construção de soluções práticas e viáveis. Assim, o reconhecimento em primeiro lugar demonstra que todo o trabalho realizado está seguindo um caminho viável, reconhecido e incentivado”, celebra.

A equipe completa do projeto vencedor é formada por Alexandre Naves, André Castro, Carlos Eduardo Gonçalves de Oliveira, Gustavo Novack Viana Lima, Lucas Lima, Rian Santos, Ricardo Franco, Sandro Luis de Araujo Junior, Michel Hanzen Scheeren, Guilherme Yudi Shibuya, Luiz Felipe Torminn Rocha Lima e Juliana Wanderley, da UFG, além de Pedro Luiz Paula Filho, da UTFPR, Caio Oliveira, Cleiver B. da Silva e Allan dos Santos.

Parkinson e a tecnologia assistiva

Na segunda colocação, o “VerStick” apresenta uma proposta de tecnologia assistiva voltada a pessoas com doença de Parkinson. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da PUC-Rio, o dispositivo busca auxiliar na realização de tarefas cotidianas que podem ser afetadas pelos tremores, como alimentar-se, escovar os dentes ou pentear o cabelo.

O projeto utiliza sensores inerciais, uma placa eletrônica e algoritmos para monitorar os movimentos da mão e distinguir, em tempo real, movimentos voluntários de tremores involuntários. Quando identifica o tremor, o dispositivo realiza microcorreções para ajudar a manter a extremidade estável.

Um dos diferenciais da proposta é seu caráter modular. Em vez de limitar a tecnologia a um único utensílio, o “VerStick” foi concebido para permitir a utilização de diferentes acessórios, como colher, garfo, pente e suporte para escova de dentes, a partir de um mesmo cabo inteligente.

“Levar uma solução de tecnologia assistiva nascida no interior do Ceará, fruto da colaboração entre a UFC Quixadá e a PUC-Rio, para o principal evento científico de Computação da América Latina foi um passo fundamental para demonstrar o potencial da nossa pesquisa aplicada. Demonstrar o dispositivo funcionando na prática, compartilhar os relatos e métricas dos 19 voluntários que participaram dos testes clínicos e receber o entusiasmo imediato dos avaliadores confirmou que estamos no caminho certo para transformar vidas por meio da tecnologia”, afirma o pesquisador Samuel Nascimento, que integra a equipe do projeto.

Além dele, a equipe é formada por Alberth Silva, Petrucio Filho, Ray Teixeira, Adriano Branco, Marcelo Martins da Silva e Simone Barbosa, pesquisadores da UFC e da PUC-Rio.

O reconhecimento da SBC fortalece os planos da equipe de avançar na proteção intelectual da tecnologia e na transição da produção laboratorial, baseada em impressão 3D, para a manufatura de um lote piloto comercial.

Decisões baseadas em dados

O terceiro lugar ficou com o “TerraPlanner – Plataforma Aberta de Inteligência Territorial como Serviço (TIaaS)”, desenvolvido na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). A plataforma disponibiliza serviços web para apoiar decisões relacionadas ao território, permitindo analisar mapas, imagens de satélite, rotas, características demográficas e socioeconômicas e áreas de alcance de diferentes equipamentos e serviços.

Em desenvolvimento há cinco anos, a ferramenta pode ser utilizada em diferentes contextos. Um empreendimento pode, por exemplo, comparar áreas de influência de possíveis locais para a abertura de uma unidade, enquanto gestores públicos podem analisar o acesso da população a equipamentos de saúde, educação ou outros serviços. A plataforma também permite trabalhar com dados publicados pelo IBGE e observar mudanças demográficas e socioeconômicas ao longo do tempo.

Um dos principais diferenciais do TerraPlanner é sua arquitetura aberta, que permite o desenvolvimento de novos plugins e a reutilização de seus serviços para aplicações específicas. Entre os possíveis campos de utilização estão mobilidade urbana, resposta a desastres, mineração sustentável, infraestrutura, telecomunicações, recuperação ambiental, saúde, educação e defesa civil.

“Ao longo de cinco anos passaram 189 estudantes pelo projeto, que realizaram 10 monografias e duas dissertações de mestrado, mas a maioria desempenhou um ou mais dos diversos papéis que existem no ecossistema de desenvolvimento de software (engenheiro de software, engenheiro de teste, engenheiro de confiabilidade de site, analista de UX, cientista de dados, etc). Trata-se de uma plataforma muito grande com cerca de 13 máquinas virtuais rodando os ambientes de produção, homologação e desenvolvimento, cerca de 43 componentes de software conteinerizados”, explica o professor Tiago Carneiro, um dos responsáveis pelo projeto juntamente com o professor Rodrigo Pedrosa. Como destacado, o projeto é desenvolvido coletivamente por estudantes de graduação e pós-graduação da UFOP.

A expectativa da equipe é que a conquista do Selo SBC contribua para ampliar a visibilidade do TerraPlanner e aproximar o projeto de empresas e pesquisadores interessados em estabelecer parcerias e explorar aplicações em maior escala.