Manter uma rotina de estudos e exercícios é um dos desafios para quem está aprendendo a programar. A dificuldade de saber por onde começar, a complexidade crescente dos problemas e a frustração diante dos erros podem comprometer a motivação dos estudantes. Foi a partir dessa realidade, observada pelos próprios integrantes da equipe durante sua trajetória acadêmica, que surgiu a Overflows, plataforma web gamificada desenvolvida no Instituto Federal do Piauí (IFPI) e que agora recebe a chancela da Sociedade Brasileira de Computação (SBC).
A plataforma foi concebida para apoiar o treinamento em programação competitiva e recreativa, utilizando elementos de gamificação para tornar a prática de algoritmos e estruturas de dados mais dinâmica. A proposta busca contribuir especialmente para a preparação de estudantes para competições de alto nível, como a Maratona de Programação da SBC e a Olimpíada Brasileira de Informática (OBI).
A ideia nasceu da experiência dos integrantes da equipe, parte deles com formação no curso Técnico em Informática e atualmente em fase de conclusão do curso superior de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Ao longo desse percurso, foram identificadas dificuldades relacionadas à motivação, ao engajamento e à continuidade da prática.
“Notávamos que muitos estudantes tinham interesse pela área, mas encontravam dificuldades para manter uma rotina de prática ou até mesmo para saber como começar a desenvolver melhor suas habilidades”, conta Isac Brito Matos (IFPI), representante do projeto. Segundo ele, a programação competitiva pode ser uma ferramenta interessante para exercitar lógica, algoritmos e resolução de problemas, mas também pode parecer intimidadora para quem está iniciando.
Antes de começar o desenvolvimento, a equipe realizou uma pesquisa para conhecer o perfil dos possíveis usuários e suas principais dificuldades. O formulário recebeu 138 respostas, principalmente de estudantes e integrantes de instituições de ensino, sendo que 71,7% dos participantes tinham entre 14 e 18 anos. As informações coletadas ajudaram a orientar o planejamento e a definição das funcionalidades da plataforma.
Desde então, a Overflows passou por diferentes etapas de desenvolvimento e foi utilizada em atividades práticas com estudantes. A plataforma esteve presente na Pré-Maratona e na Maratona de Programação do CaisTech, que reuniram 22 participantes. Atualmente, são 79 usuários cadastrados, e a equipe pretende ampliar esse número por meio de novos eventos, atividades e possíveis parcerias com outras instituições.
Gamificação para estimular a prática
Na Overflows, a gamificação não é utilizada apenas como recurso visual ou sistema de recompensas. A proposta é fazer com que o estudante consiga acompanhar sua evolução e encontre estímulos para continuar praticando. Pontuação, rankings, conquistas, insígnias, níveis de dificuldade e acompanhamento de progresso integram a experiência da plataforma.
A estratégia dialoga com uma característica própria do aprendizado de programação: a necessidade de experimentar, errar, identificar problemas e tentar novamente. Ao submeter um código e receber o resultado da avaliação, o usuário pode utilizar o erro como retorno para aperfeiçoar sua solução.
A experiência dos participantes foi analisada em um Trabalho de Conclusão de Curso por meio do questionário GamefulQuest. Durante a Pré-Maratona e a Maratona de Programação do CaisTech, foram obtidas 18 respostas válidas e, nas sete dimensões avaliadas, todas as médias ficaram acima de 5 em uma escala de 1 a 7. Desafio (6,188), Conquista (6,118) e Competição (6,095) foram as dimensões com as maiores médias.
Os resultados apontam para uma percepção positiva dos participantes em relação à experiência proporcionada pela plataforma, especialmente no que diz respeito à sensação de desafio, progresso e realização. A prática também estimula competências como raciocínio lógico, interpretação de problemas, elaboração de algoritmos, identificação de padrões e construção de estratégias, além de habilidades como gerenciamento do tempo, tomada de decisão e persistência.
“A gamificação funciona como uma camada de incentivo sobre a prática da programação. Ela não substitui o esforço necessário para aprender algoritmos ou resolver problemas, mas pode tornar esse processo mais atrativo, ajudando o estudante a permanecer engajado enquanto desenvolve habilidades técnicas e estratégias de resolução de problemas”, explica Isac.
Chancela
O reconhecimento da SBC chega em um momento em que a Overflows começa a ampliar sua utilização para além do contexto em que foi criada. Para a equipe, a chancela representa um marco na trajetória de uma iniciativa que começou como uma proposta acadêmica e evoluiu para uma plataforma funcional, utilizada em atividades reais e também objeto de investigação científica.
“Receber a Chancela da SBC representa um marco inicial muito importante para a trajetória da Overflows. O projeto nasceu dentro de um contexto acadêmico, inicialmente como uma proposta para aproximar estudantes da prática de programação, e gradualmente evoluiu para uma plataforma funcional, utilizada em atividades reais e também investigada cientificamente”, afirma Isac.
A chancela também é vista como uma oportunidade de ampliar a visibilidade da plataforma entre estudantes, professores e instituições que trabalham com programação competitiva e recreativa. A equipe espera que o reconhecimento contribua para novas aplicações em eventos, maratonas, projetos de ensino e extensão e para o aprimoramento contínuo da ferramenta.
Mais do que validar uma etapa já realizada, o reconhecimento é encarado como um estímulo para os próximos passos. “Enxergamos a Chancela SBC não como o encerramento de uma etapa, mas como um incentivo para as próximas. Queremos continuar aprimorando a plataforma, ampliar a sua utilização, realizar novas avaliações com estudantes e fortalecer a integração entre o desenvolvimento tecnológico, ensino e pesquisa”, destaca Isac.
Sobre a Overflows
A Overflows é uma plataforma web gamificada criada para apoiar e incentivar o treinamento em programação competitiva e recreativa. Por meio de mecânicas de gamificação, a iniciativa busca tornar a resolução contínua de problemas de algoritmos e estruturas de dados mais atrativa e contribuir para a preparação de estudantes para competições.
A equipe coordenadora é formada por Isac Brito Matos, Vanessa Veloso Aragão, Priscila Freitas Martins, João Pedro de Oliveira Damasceno, Diogo Bruno de Sá Amorim e Lucas Soares de Souza Cruz, do Instituto Federal do Piauí (IFPI).
