Revista Computação Brasil nº 57 amplia debates do CSBC 2026 sobre desafios da Computação brasileira

A Sociedade Brasileira de Computação (SBC) acaba de lançar a edição nº 57 da Revista Computação Brasil, publicação que reúne reflexões e contribuições apresentadas no 46º Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSBC 2026), realizado de 19 a 23 de julho, em Gramado (RS). Com o tema “Transformação Digital para um Mundo em Emergência Climática”, o congresso reuniu mais de 1.860 participantes, 10 Eventos Base e 17 Eventos Satélite, e teve mais de 2 mil artigos submetidos, dos quais mais de 700 foram aceitos.

A nova edição da revista busca ampliar e fazer reverberar parte dos debates realizados durante o congresso, apresentando dez artigos que percorrem diferentes dimensões da Computação brasileira. A seleção inclui desde temas científicos de fronteira, como Inteligência Artificial e Computação e Comunicação Quânticas, até questões relacionadas à emergência climática, soberania digital, educação, diversidade, ciência aberta, inovação e aproximação entre universidade, indústria e sociedade.

Segundo o editor convidado Flávio Rech Wagner (UFRGS), a proposta foi justamente mostrar a diversidade de temas e de frentes de atuação presentes no CSBC. “Os artigos passam tanto por temas científicos de fronteira, a exemplo de inteligência artificial e computação quântica, quanto por temas de relevância social e política, como mudanças climáticas e soberania digital”, explica.

Para ele, a revista também funciona como uma forma de permitir que debates importantes do Congresso alcancem um público mais amplo. “Esta edição da Computação Brasil permite o resgate de parte importante dessa riqueza, ao mesmo tempo que serve como excelente porta de entrada para as pessoas que querem conhecer e apreciar a diversidade dos esforços de nossa comunidade nestes múltiplos temas”, completa Wagner.

Computação e emergência climática

A emergência climática ocupa lugar central na publicação. O artigo de apresentação da revista assinado pelos editores convidados Flávio Rech Wagner, Alberto Egon Schaeffer Filho e Weverton Cordeiro, todos da UFRGS, recupera o debate promovido pelo CSBC 2026 e reforça a necessidade de compreender a Computação como parte ativa da resposta aos desafios ambientais contemporâneos. O congresso discutiu, entre outros aspectos, como tecnologias podem contribuir para a mitigação de impactos ambientais, a adaptação a eventos extremos e a construção de sociedades mais resilientes.

Dois artigos da CB 57 são diretamente dedicados ao tema. Em “Do Dado à Proteção: Computação e Resiliência Climática no Brasil”, Francilene Garcia (SBPC e UFCG) discute o papel da Computação na transformação de dados e previsões em decisões capazes de contribuir para a proteção da população, considerando também as desigualdades existentes no país. Já “Do Clima às Pessoas: O Papel da Computação na Construção de Sociedades Mais Resilientes”, de Soraia Musse (PUCRS) e Roberto Cesar Marcondes Junior (USP), propõe uma abordagem interdisciplinar, centrada nas pessoas e na integração de dados, modelos e conhecimentos de diferentes áreas.

“Hoje não se pode mais discutir o uso das TICs e a muito rápida disseminação da IA generativa se não atentarmos tanto para o seu impacto energético e ambiental como para o seu papel na resiliência climática da nossa sociedade”, explica Flávio Rech.

Soberania digital

Outro destaque da edição é o debate sobre soberania digital. No artigo “Soberania Digital é Capacidade de Escolha: Uma Agenda para o Brasil na Transição Tecnológica”, Renata Mielli (MCTI e CGI.br) aborda diferentes dimensões do tema e defende uma estratégia nacional capaz de identificar dependências críticas e desenvolver alternativas, permitindo ao país ampliar suas capacidades próprias em pontos estratégicos da cadeia tecnológica.

O tema está diretamente relacionado ao papel que a comunidade de Computação deve desempenhar no debate sobre o futuro tecnológico do país. “Nossa comunidade também precisa ser parte muito ativa no debate sobre soberania digital, ajudando o país a encontrar seu caminho próprio no mundo digital, com a independência tecnológica possível, mas entendendo as necessárias interdependências entre países”, avalia Flávio Rech.

Formação, diversidade e ciência aberta

A edição também evidencia a atuação da SBC em temas relacionados à formação e à construção de uma comunidade de Computação mais diversa e articulada.

O artigo “Computação na Educação Básica: Formação, Equidade e Implementação”, de Luciana Foss (UFPEL), Simone da Costa Cavalheiro (UFPEL) e Leila Ribeiro (UFRGS), discute a implementação da Computação na Educação Básica brasileira e destaca iniciativas como o Mestrado Profissional em Ensino de Computação em Rede Nacional (PROFCOMP), o Curso de Qualidade no Ensino de Computação na Educação Básica (CQEB) e o Simpósio Brasileiro de Computação na Educação Básica (SBC-EB).

A participação das mulheres na área é abordada em “WIT 2026: Duas Décadas de Protagonismo, Comunidade e Diversidade na Computação”. O texto recupera a trajetória de 20 anos do Women in Information Technology (WIT), sua relação com o Programa Meninas Digitais e as iniciativas voltadas à redução das desigualdades de gênero na Computação. O artigo é coassinado por Anna Beatriz Marques (UFC), Isabela Gasparini (UDESC), Leticia Santos Machado (UFRGS), Renata Viegas de Figueiredo (UFPB), Alessandreia Marta de Oliveira (UFJF), Mirella M. Moro (UFMG), Luciana Cardoso de Castro Salgado (UFF) e Aleteia Araújo (UNB).

Já “O Fórum SOL de Ciência Aberta e o Desafio da Reprodutibilidade”, de José Viterbo (UFF), Aleteia Araújo (UNB) e Fabio Kon (USP), trata da importância da ciência aberta e da disponibilização de artefatos de pesquisa para ampliar a transparência, a reprodutibilidade e a integridade científica. O artigo também apresenta iniciativas da SBC nessa área, como o I Fórum SOL de Ciência Aberta e o Prêmio SOL Reprodutibilidade.

Inovação e tecnologias de fronteira

A relação entre academia, indústria e sociedade também ganha espaço na publicação. Em “Computec 2026: Aproximando Indústria, Academia e Sociedade”, Flavia Santoro (Inteli), Flávio R. Wagner (UFRGS) e Crishna Irion (Inteli) analisam os debates realizados no Seminário de Computação e Mercado, que discutiu formas de fortalecer a interação entre universidades, empresas, governo e sociedade e de ampliar a participação efetiva da indústria nos eventos e iniciativas da comunidade científica.

Completam a edição dois artigos dedicados a áreas de fronteira. Em “Novos Desafios para a IA: A Redução da Energia Requerida na Inferência”, Luigi Carro (UFRGS) discute alternativas para reduzir o consumo energético da Inteligência Artificial, incluindo o uso de modelos de linguagem menores e executados localmente. Já “Computação e Comunicação Quânticas no Brasil: Avanços e Desafios a Partir do I SBCCQ”, de Antonio Abelém (UFPA), Adenilton José da Silva (UFPE) e Jéferson Nobre (UFRGS), analisa avanços e desafios das tecnologias quânticas e destaca a necessidade de formação de recursos humanos e articulação da comunidade brasileira.

“Essa diversidade de temas é muito ilustrativa dos desafios que a Computação brasileira vive atualmente. De um lado, temos os desafios científicos propriamente ditos, por exemplo em áreas de fronteira como a inteligência artificial e a computação e comunicação quânticas, nas quais precisamos manter grupos de pesquisa de excelência mundial. Mas, de outro lado, considerando a transformação digital pela qual passam todos os setores da sociedade, nossa comunidade acadêmica também precisa estar atenta para questões sociais, políticas e ambientais relacionadas à nossa área”, explica Rech.

Comunidade viva

Na avaliação de Wagner, a própria dimensão do CSBC 2026 ajuda a compreender a vitalidade da comunidade retratada na nova edição da Computação Brasil. A presença de mais de 1.860 participantes, a diversidade de eventos e a participação expressiva de estudantes, que representaram 55% dos inscritos, demonstram a capacidade de mobilização da área e sua renovação geracional.

“São muitos os desafios simultâneos que nossa comunidade precisa enfrentar, em múltiplas dimensões. Esses desafios parecem exigir um esforço desmedido de nossa parte, mas, ainda assim, não podemos nos furtar de atuarmos em todas essas frentes. Essa é nossa responsabilidade social”, afirma.

A presidente da SBC, Thaís Vasconcelos Batista, também ressalta, no editorial da CB 57, que os debates do CSBC ultrapassaram o tema central do congresso e evidenciaram a pluralidade da Computação brasileira. A nova edição, segundo ela, procura não apenas registrar as discussões realizadas em Gramado, mas contribuir para que elas continuem estimulando novas reflexões, pesquisas, iniciativas e ações.

O editorial também destaca avanços da SBC em 2026, como o início do PROFCOMP, a atuação da Sociedade nas discussões sobre soberania digital e políticas para datacenters, a aproximação com a ACM, a proposta de atualização da classificação das subáreas da Computação e a evolução do JEMS3, além de iniciativas relacionadas à preservação da memória institucional e à inclusão, diversidade e equidade.

A Revista Computação Brasil nº 57 já está disponível para leitura na Biblioteca Digital Aberta da SBC, a SBC OpenLib. Acesse e leia: https://doi.org/10.5753/compbr.2026.57