Há 20 anos, quando a discussão sobre gênero e Computação ainda ocupava um espaço bastante restrito na comunidade científica e tecnológica brasileira, a Sociedade Brasileira de Computação (SBC) criou o WIT – Women in Information Technology. Desde 2007, o evento vem acompanhando as transformações da área e ampliando o debate sobre a participação das mulheres na Computação, passando da preocupação inicial com a atração de meninas e chegando a questões como permanência, ascensão profissional, liderança, interseccionalidade, inclusão, diversidade e, mais recentemente, os impactos da inteligência artificial.
Essa trajetória foi celebrada em 2026, durante a 20ª edição do WIT, realizada como parte da programação do Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSBC), em julho, na cidade de Gramado (RS). Para duas das coordenadoras gerais da edição, Profa. Isabela Gasparini (UDESC) e Profa. Renata Viegas (UFPB), chegar a duas décadas representa não apenas a longevidade de um evento, mas a consolidação de uma comunidade mobilizada em torno da transformação da Computação.
“Hoje discutimos de forma muito mais aberta a equidade de gênero na Computação e vemos mais mulheres ocupando posições de liderança, coordenando projetos e grupos de pesquisa, liderando comunidades e participando de espaços de decisão”, destacam as coordenadoras.
Esse avanço, no entanto, não significa que a igualdade tenha sido alcançada. As barreiras relacionadas à permanência, ao reconhecimento e à ascensão profissional continuam presentes. Nesse cenário, o desafio do WIT passa a ser mais amplo: não apenas ampliar a entrada de mulheres na Computação, mas contribuir para que elas permaneçam, desenvolvam suas carreiras, alcancem posições de liderança e participem das decisões que definem os rumos da tecnologia.
Permanência e protagonismo
A própria evolução dos temas discutidos no WIT acompanha essa mudança de perspectiva. Se, nos primeiros anos, uma das principais preocupações era incentivar meninas e mulheres a conhecerem a Computação e ingressarem na área, a experiência acumulada mostrou que a entrada é apenas uma etapa de uma trajetória muito mais complexa.
“Precisamos compreender também quem consegue permanecer, quem encontra oportunidades para avançar na carreira e quem chega aos espaços de liderança e decisão”, afirmam Isabela e Renata.
Essa ampliação do olhar também trouxe para o centro das discussões a interseccionalidade. As mulheres na Computação não formam um grupo homogêneo, e fatores como raça e etnia, classe social, território, deficiência e orientação sexual podem produzir experiências e barreiras distintas.
Ao mesmo tempo, o surgimento e a expansão de novas tecnologias acrescentaram novos desafios à agenda do WIT. A inteligência artificial, por exemplo, passou a levantar questões sobre quem participa do desenvolvimento dessas tecnologias, quais vieses podem ser reproduzidos pelos sistemas e quem será beneficiado ou excluído por essas transformações.
Nesse sentido, a pergunta que orienta o evento também se transformou. “Deixamos de perguntar apenas quantas mulheres estão na Computação para perguntar também quais mulheres conseguem entrar, permanecer, avançar e participar das decisões sobre a tecnologia”, ressaltam as coordenadoras.
WIT e Meninas Digitais
Uma das iniciativas mais importantes associadas à trajetória do WIT é o Programa Meninas Digitais, da SBC. O Fórum Meninas Digitais integra o evento desde 2011 e se tornou um dos principais momentos de encontro dos projetos parceiros do Programa.
Voltado a alunas do ensino fundamental, médio e tecnológico, o Meninas Digitais busca aproximar meninas da Computação, apresentar possibilidades de formação e carreira e estimular sua permanência e protagonismo na área.
No Fórum realizado do WIT, equipes de diferentes regiões compartilham experiências, apresentam projetos, discutem desafios e estabelecem novas parcerias. “O Fórum tornou-se um momento muito importante de inspiração e pertencimento: percebemos que existem muitas pessoas, em diferentes lugares do país, trabalhando por uma missão comum de estimular o interesse, a permanência e o protagonismo de meninas e mulheres na Computação”, pontuam as coordenadoras.
Essa articulação em rede também aparece na participação das comunidades que se deslocam para o WIT. Durante a edição de 2026, professoras e estudantes vinculadas aos projetos parceiros do Meninas Digitais organizaram caravanas de diferentes regiões do país para participar do evento, reforçando a dimensão nacional da iniciativa.
Maior evento do CSBC
Ao longo de duas décadas, o WIT também cresceu em dimensão e alcance. O que começou como um espaço dedicado a discutir a presença feminina na Tecnologia da Informação tornou-se, segundo as coordenadoras, o maior evento do CSBC, ocupando a maior sala do congresso e reunindo um público expressivo interessado e atuante na agenda de mulheres e Computação.
Para Isabela Gasparini e Renata Viegas, esse crescimento é um dos principais símbolos da trajetória construída desde 2007. O WIT passou a reunir não apenas pesquisas e discussões acadêmicas, mas também projetos de extensão, iniciativas educacionais, experiências profissionais e ações voltadas à transformação da realidade.
“O WIT deixou de ser um pequeno espaço de discussão sobre mulheres na Computação para se tornar um dos principais pontos de encontro dessa comunidade, do qual nasceram redes, projetos, pesquisas e o próprio Programa Meninas Digitais”, avaliam.
A produção científica é outra dimensão desse processo. Os trabalhos apresentados ao longo das edições registram diferentes experiências relacionadas à participação feminina na Computação e ajudam a construir evidências sobre os desafios enfrentados pelas mulheres na área. Os anais do WIT reúnem, ao longo dos anos, pesquisas sobre temas como ingresso e permanência, liderança, interseccionalidade, inclusão, educação, mercado de trabalho e diferentes estratégias de incentivo à participação feminina.
Observatório Meninas Digitais
Em 2026, outro marco foi apresentado durante o WIT: o lançamento do Observatório Meninas Digitais. A iniciativa reúne dados fornecidos pelas coordenações dos Projetos Parceiros entre 2021 e 2026 e permite acompanhar a expansão e o alcance da rede, além de informações sobre meninas atendidas, equipes, escolas, produção científica e engajamento.
Os dados apresentados mostram que o número de projetos ativos passou de 55, em 2021, para 126, em 2026 – mais que o dobro em cinco anos. Somente neste ano, os projetos registraram 28.461 pessoas atendidas, sendo 10.291 meninas, além de ações realizadas em 475 escolas. Os projetos também contabilizaram 430 meninas que seguiram carreira em Tecnologia da Informação.
A rede também vem ampliando sua produção de conhecimento. Em 2026, 91 projetos informaram desenvolver pesquisa científica e 84 relataram ter publicações científicas. Para as coordenadoras, essa dimensão é especialmente relevante porque transforma experiências realizadas em diferentes contextos do país em conhecimento capaz de subsidiar novas iniciativas e políticas.
“O Programa Meninas Digitais é talvez uma das expressões mais concretas desse legado. Uma discussão que ganhou força dentro do evento se transformou em um programa com atuação contínua, presente em diferentes regiões e capaz de mobilizar milhares de pessoas”, acrescentam as professoras.
Vestindo a camisa
A celebração dos 20 anos também ganhou uma dimensão simbólica durante o WIT 2026. Tradicionalmente, o evento reúne sua comunidade para uma fotografia coletiva, e, neste ano, foram distribuídas 730 camisetas para a ocasião.
A imagem de centenas de pessoas reunidas e vestindo a camisa do WIT e do Programa Meninas Digitais tornou-se uma representação do crescimento dessa comunidade ao longo das duas décadas.
“Ver tantas pessoas reunidas e literalmente vestindo a camisa do WIT e do Programa Meninas Digitais foi muito representativo. Para nós, essa imagem simboliza o quanto essa comunidade cresceu e quantas pessoas passaram a se reconhecer como parte dessa construção coletiva”, celebram Isabela Gasparini e Renata Viegas.
Mais 20 anos
Ao olhar para o futuro, o WIT mantém desafios que acompanham sua trajetória, mas incorpora também novas questões trazidas pelas transformações tecnológicas. Entre as prioridades estão a permanência e a ascensão profissional das mulheres, a ampliação da representatividade feminina nos espaços de liderança e decisão e o aprofundamento da perspectiva interseccional.
A inteligência artificial acrescenta outra dimensão a essa agenda. Para as coordenadoras, é fundamental garantir que as mulheres estejam não apenas entre as usuárias das novas tecnologias, mas também entre aquelas que pesquisam, projetam, desenvolvem e tomam decisões sobre seus rumos.
Nesse processo, a SBC e o WIT têm um papel que ultrapassa a promoção do debate. A atuação envolve articular pessoas, fortalecer redes, produzir evidências e contribuir para mudanças estruturais na comunidade de Computação.
“A diversidade não pode depender somente do esforço individual das mulheres ou do voluntariado de alguns projetos; ela precisa se tornar um compromisso permanente da comunidade de Computação”, defendem Gasparini e Viegas.
Depois de 20 anos, o WIT chega a um novo marco com uma comunidade maior, mais articulada e presente em diferentes regiões do país. A trajetória construída desde 2007 mostra que iniciativas de discussão, quando acompanhadas de redes, projetos, pesquisa e mobilização, podem gerar transformações que ultrapassam os limites de um evento.
E, como resumem as coordenadoras, “depois de 20 anos, temos cada vez mais pessoas vestindo essa camisa. O próximo passo é garantir condições para que elas possam continuar transformando a Computação”.
