A Sociedade Brasileira de Computação (SBC) concluiu a elaboração do documento “Proposta de Atualização da Subárea do Conhecimento da Computação”, iniciativa encaminhada à CAPES, ao CNPq e à FINEP com o objetivo de modernizar a classificação oficial utilizada pelos principais órgãos de ensino, pesquisa e inovação do país.
A proposta responde a uma demanda histórica da comunidade científica da Computação, que há anos aponta a necessidade de revisão da tabela de áreas e subáreas utilizada pelos órgãos de fomento. Definida há mais de 20 anos, a classificação ainda é empregada em diversos processos, como a categorização de pesquisadores, projetos de pesquisa, programas de pós-graduação e editais de financiamento, mas já não acompanha a evolução da área.
“A classificação de áreas e subáreas é utilizada pelo CNPq, pela CAPES e pela FINEP em diversos momentos, para classificar pesquisadores, projetos e outras atividades relacionadas à pesquisa. Entretanto, essa tabela foi definida há mais de 20 anos e hoje utiliza nomenclaturas desatualizadas, com termos que caíram em desuso e sem contemplar áreas que se consolidaram ao longo desse período”, explica o coordenador do Grupo de Trabalho, André Luis de Medeiros Santos, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Diretor de Planejamento e Programas Especiais da SBC.
Além da rápida evolução tecnológica, a Computação expandiu sua atuação para praticamente todos os campos do conhecimento, tornando-se uma área estratégica para o desenvolvimento científico, econômico e social do país. Nesse contexto, a atualização da classificação busca representar de forma mais fiel a diversidade da pesquisa desenvolvida atualmente.
Grupo de Trabalho
Para conduzir a iniciativa, a SBC criou, em agosto de 2025, o Grupo de Trabalho de Definição de Subáreas da Computação, reunindo pesquisadores de diferentes regiões e especialidades da área.
O grupo é formado pelos professores André Santos (UFPE), Alba Magalhães (UnB), Adenilso Simão (USP São Carlos), Antônio Abelém (UFPA) e Avelino Zorzo (PUCRS), com consultoria do professor Edmundo Souza e Silva (UFRJ).
Segundo André Santos, a proposta foi construída para atualizar a classificação sem romper com sua estrutura histórica. “A classificação proposta pelo grupo atualiza a tabela de áreas e subáreas da Computação e foi encaminhada aos órgãos que a utilizam para avaliação e possível adoção. Nossa preocupação foi modernizar a estrutura preservando sua compatibilidade com os registros históricos, ao mesmo tempo em que incorporamos novas áreas que hoje fazem parte da realidade da pesquisa em Computação”, explicou.
O documento destaca que a classificação atualmente adotada apresenta limitações importantes para representar adequadamente a Computação contemporânea. Entre os exemplos estão nomenclaturas que se tornaram obsoletas, como Teleinformática, além da ausência de áreas hoje fundamentais para a produção científica, como Inteligência Artificial.
Ao mesmo tempo, a proposta reconhece que a Computação se tornou cada vez mais interdisciplinar, estabelecendo conexões permanentes com áreas como saúde, educação, engenharias, ciências agrárias, ciências humanas e ciências sociais.
De Ciência da Computação para Computação
Uma das principais mudanças sugeridas pelo Grupo de Trabalho é a alteração do nome da atual subárea “Ciência da Computação” para simplesmente “Computação”.
De acordo com o documento, a nova denominação representa de forma mais abrangente as dimensões científicas, tecnológicas e aplicadas da área, além de acompanhar a nomenclatura já adotada pela área de avaliação da CAPES.
A proposta mantém a estrutura geral existente, mas promove reorganizações que tornam a classificação mais aderente ao cenário atual da pesquisa nacional e internacional.
Novas classificações
Entre as mudanças propostas está a reorganização da área de Teoria da Computação, que passa a incorporar a atual Matemática da Computação e ganha classificações específicas para temas como Complexidade Computacional, Lógica e Semântica de Sistemas Computacionais.
Na área de Metodologias da Computação, a proposta amplia as possibilidades de enquadramento das pesquisas ao incluir explicitamente áreas consolidadas e em forte expansão, como Inteligência Artificial e Interação Humano-Computador.
Já em Sistemas de Computação, o documento atualiza nomenclaturas tradicionais e incorpora áreas emergentes que ganharam protagonismo nos últimos anos, como Segurança e Privacidade, Computação Quântica e Robótica.
Também são sugeridas mudanças terminológicas para adequar a classificação à linguagem utilizada atualmente pela comunidade científica. É o caso da substituição de Teleinformática por Redes de Computadores e Sistemas Distribuídos, e da atualização de Arquitetura de Sistemas de Computação para Arquitetura de Computadores e Processamento de Alto Desempenho.
Computação Aplicada
Outro destaque da proposta é a criação da área de Computação Aplicada, destinada a representar pesquisas desenvolvidas em parceria com outros campos do conhecimento.
A nova classificação reconhece o caráter transversal da Computação e contempla nove segmentos: Computação e Ciências Agrárias; Computação e Ciências Biológicas; Computação e Ciências da Saúde; Computação e Ciências Humanas; Computação e Educação; Computação e Ciências Sociais e Aplicadas; Computação e Linguística, Letras e Artes; Computação e Ciências Exatas e da Terra; e Computação e Engenharias.
Segundo os autores, essa estrutura permitirá representar de forma mais adequada pesquisas interdisciplinares que atualmente não encontram enquadramento satisfatório na classificação vigente.
Referências nacionais e internacionais
Para elaborar a proposta, o Grupo de Trabalho analisou sistemas de classificação adotados por instituições nacionais e internacionais. Entre as referências utilizadas estão o Computing Classification System, da ACM (Association for Computing Machinery) e modelos empregados por órgãos de pesquisa do Reino Unido, Europa e Estados Unidos.
Também foram consideradas as grandes áreas e comissões especiais da própria SBC, bem como as áreas e linhas de pesquisa informadas pelos programas brasileiros de pós-graduação em Computação nos relatórios mais recentes da CAPES.
A proposta, aprovada pelo conselho da SBC, busca equilibrar modernização e continuidade histórica, incorporando novas frentes de pesquisa sem comprometer a comparabilidade dos dados acumulados ao longo dos anos.
Agora, o documento será analisado pelos órgãos responsáveis pela adoção da Tabela de Áreas do Conhecimento. A expectativa da SBC é que a atualização contribua para uma representação mais fiel da diversidade da Computação contemporânea, fortalecendo processos de avaliação acadêmica, financiamento à pesquisa, formulação de políticas públicas e produção de indicadores científicos para a área.
Leia o documento completo disponível no site da SBC: https://doi.org/10.5753/sbc.rt.2026.200
